SUSTENTABILIDADE E A ERA DAS CORES NO MERCADO FINANCEIRO

Luiz Paulo Silveira em Geral Atualizado em 18.09.2020

Agora parece que vai pegar! Após décadas sendo utilizado como estratégia de marketing e praticamente caindo no descrédito por escândalos de corrupção, condições desumanas de trabalho, opressão sobre stakeholders, desastres ambientais e outras incoerências cometidas por grandes corporações tidas como sustentáveis, a tolerância dos consumidores aos discursos vazios dissociados de boas práticas chegou no limite.

São novos tempos, uma nova era já visível no horizonte chegando de mãos dadas com um batalhão de jovens consumidores de até 22 anos de idade, apelidados de Geração Z. A mudança radical do discurso à prática da sustentabilidade nasceu na essência destes jovens, já que 73% deles declararam a uma pesquisa da First Insight que estão dispostos a pagar mais caro por produtos e serviços de empresas comprovadamente sustentáveis. A pandemia da COVID-19 e seus impactos catastróficos para a humanidade e a economia mundial reforçaram o sentimento de urgência por uma mudança de atitude.

As chamadas greenwhashing, ou seja, empresas que se apropriam injustificadamente de práticas sustentáveis por meio de ferramentas de marketing, estão perdendo espaço.

Como sempre, quem dita as regras é o Mercado Financeiro. Por meio de suas lentes, o mundo evolui para a direção apontada. Discursos e modelos sobre como salvar o planeta nada adiantariam se fossem invisíveis às lentes do Mercado, pois ele é avesso ao risco do que não consegue enxergar.

Porém, por mais que tenha aversão ao risco, existe uma força muito maior que empurra o Mercado Financeiro em sua direção: a necessidade de estar em constante expansão. Essas forças antagônicas explicam sua trajetória de crescimento ao longo do tempo em formato de degraus. O salto nesses degraus acontece quando o risco de estagnação e colapso se sobrepõe ao risco de “trocar de lentes”. Foi assim, por exemplo, com a lente dos ativos intangíveis a partir da década de 1970. As novas metodologias e instrumentos jurídicos desenvolvidos para delimitação e mensuração desta nova classe de ativos intangíveis criaram novos limites para a expansão do Mercado Financeiro, que vem surfando nesta onda até os dias de hoje.

Usando uma metáfora, seria como passar do cinema mudo para o cinema falado. Quando aprendemos a enxergar com as novas lentes, as antigas não fazem mais sentido. O gráfico abaixo, com a evolução do índice DJ SP500, demonstra o quanto esta troca de lentes foi benéfica para o Mercado Financeiro:

Por meio do gráfico anterior, podemos inferir que o Mercado Financeiro sofreu uma grande expansão decorrente das novas lentes para visão dos ativos intangíveis. Contudo, após 50 anos surfando nesta onda, o velho dilema de novo se aproxima: estagnação do crescimento, associada a riscos cada vez maiores em projetos de expansão. A economia global entrou em colapso em 2008 e nem a enxurrada de liquidez promovida pelos Bancos Centrais conseguiu impor a velocidade de expansão desejada. O Brasil caiu de joelhos fortemente em 2014, e agora com a pandemia tivemos a mensagem clara de que precisamos novamente trocar de lentes e subir um degrau.

Segundo o físico austríaco Fritjof Capra, a situação agora é mais complicada. A recessão atual não é apenas fruto da pandemia, mas um recado do nosso planeta “Gaia”: estamos incomodando. O cinema em preto e branco das métricas financeiras não convence mais, mesmo após o som falado dos intangíveis e de suas promessas futuras. Capra acha que chegamos ao limite do razoável, ou melhor, que já o ultrapassamos. E qual é a próxima visão? Que lentes o Mercado Financeiro deve adotar?  Chegou a hora do Mercado Financeiro enxergar tudo a cores! As cores virão mediante o uso das já famosas lentes ESG, sigla em inglês para os Aspectos Ambientais, Sociais e de Governança. Já possuímos há algum tempo a tecnologia, as principais métricas, e algumas bases de dados bem relevantes, graças a universidades, cientistas, organizações e iniciativas como o GRI e IIRC.

Certamente ainda falaremos muito sobre as novas lentes ESG, já que elas abrirão um horizonte infinito de possibilidades para o Mercado Financeiro. Não precisamos avaliar agora de quanto será essa expansão, como, e por quanto tempo. Precisamos apenas trocar de lentes e esperar. A adaptação virá rapidamente, dada a criatividade e a velocidade características do Mercado. Desta forma, novas metodologias e métricas de precificação surgirão! Nós da Apsis estamos trabalhando nessas métricas desde 2006. Com a evolução da tecnologia, e principalmente do Big Data, agora conseguimos validação estatística para uma calibragem inicial dessas novas lentes. Um novo ciclo de expansão, agora bem maior, a cores, e, principalmente, alinhado com o nosso planeta. Aguardem nossos próximos informativos sobre o assunto.

 



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