Avaliação de Startups

Rodrigo Nigri em Geral Atualizado em 26.03.2019

Em 2015, quando já trabalhava na Apsis Consultoria, na área de business valuation, fiz um intercâmbio de férias em Tel Aviv. A cidade é um dos maiores polos globais de startups e empreendedorismo, onde nasceram empresas famosas, como Waze e Wix.

Nessa incursão, em algumas visitas realizadas a fundos de venture capital (fundos de investimento especializados em startups) e aceleradoras, perguntava com recorrência como era realizada, no processo decisório de investimento em uma startup, a análise da valuation para definição da participação a ser adquirida pelo investidor. Na maioria das vezes, entretanto, obtive respostas que focavam exclusivamente o time responsável pela empreitada e a estimativa de potencial de mercado. Dessa forma, buscamos elucidar neste artigo as metodologias de avaliação mais comumente aplicadas nos diferentes estágios de evolução de uma startup.

  1. Estágio Semente

Este é o período inicial da vida de uma startup, no qual a ideia a ser desenvolvida, bem como o produto ou serviço, está ainda em período de conceituação e teste. Nesse período, é comum que o faturamento da companhia seja baixo ou inexistente, fazendo com que seu resultado financeiro seja negativo. No estágio semente, as companhias tendem a ser financiadas por investidores-anjos ou pelo chamado capital semente (seed money).

Metodologia de avaliação: Scorecard Method – A metodologia indicada para a avaliação de startups nesse estágio de maturidade é o “Scorecard Method”, que compara a startup a outras startups do setor ajustando o seu valor por fatores como região, mercado e estágio de maturidade.

O primeiro passo é determinar o valor médio de pre-revenue de startups na região e no setor do mercado. Isso mesmo pode ser feito utilizando-se bases de dados como Pitchbook ou Angel List. Posteriormente, faz-se necessário ranquear startups na mesma região por fatores como os apresentados no seguinte exemplo ilustrativo:

 

A relevância desses fatores é extremamente subjetiva, e a ênfase deve estar nas habilidades e track record da equipe. Utilizando esses fatores, é possível estimar um valor da companhia com base na sua posição no mercado, por meio de uma ponderação de cada fator em relação ao valor médio da pre-revenue da startup.

O fator essencial para a utilização do Scorecard Method é um bom entendimento do valor médio das pre-money valuations na região. Com esses dados disponíveis, é possível realizar análises do valor do target para rounds iniciais.

  1. Estágio Inicial (“Série A/B”)

Neste período, as startups ainda não são operacionais e, portanto, ainda não apresentam indicadores financeiros robustos. Entretanto, normalmente já apresentam o MVP (Minimum Viable Product – Produto Minimamente Viável), o que torna seu plano de negócios e o mercado endereçável mais definidos e observáveis.

Metodologia de avaliação: Venture Capital Method – O Venture Capital Method considera que o investidor almeja capitalizar, em seu investimento, mediante uma saída futura em outra etapa de maturidade da startup. Dessa forma, o valor da startup no seu estágio inicial seria igual ao seu valor futuro na data de saída trazido a valor presente com base em uma estimativa de taxa que capture o risco da operação.

O valor futuro da startup pode ser calculado de diversas maneiras, como fluxo de caixa descontado ou múltiplos. Usualmente, são utilizados dados de mercado de companhias maduras no mercado no qual a empresa almeja entrar.

Com o valor futuro calculado, o post-money value é calculado com base na taxa de retorno esperada do investidor. Quanto maior o risco observado no negócio, maior a taxa de retorno esperada.

O valor terminal do negócio é levado a valor presente pela sua devida taxa de retorno para fins de cálculo de seu valor presente no seu estágio inicial.

Estágio Intermediário (Série C ou mais)

Neste período, as companhias já têm seus produtos e plataformas estruturados, sendo capazes de apresentar aos investidores dados operacionais (número de usuários, número de acessos únicos, taxa de permanência), bem como indicadores financeiros (faturamento, margem bruta, EBITDA). Esse também é o período de crescimento mais acelerado das startups e que, em regra, demanda o maior volume de investimento, normalmente proveniente de fundos especializados nesse tipo de companhia, denominados venture capital.

Metodologia de avaliação: Discounted Cash Flow DCF – Neste estágio, a startup já apresenta indicadores financeiros adequados para a elaboração de um fluxo de caixa descontado. Essa metodologia utilizará premissas de mercado, expectativas de crescimento e dados operacionais da companhia para calcular o seu fluxo de caixa futuro até a perpetuidade e trazê-la a um valor presente com base em uma estimativa de taxa que capture o risco da operação.

Conclusão

O mercado de startups é dinâmico e tem expansão acelerada. Sua precificação é inerentemente complexa devido à falta de dados disponíveis e à natureza do modelo de negócios dessas empresas. As metodologias expostas neste artigo são algumas formas de precificar esse tipo de companhia em diferentes estágios de maturidade. Porém, será sempre necessário entender o momento do mercado no qual a empresa se encontra. Ademais, é uma prática de mercado aplicar metodologias diferentes para balizar o valor da companhia.

 

 



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