CEGUEIRA

Luiz Paulo Silveira em Artigos Atualizado em 21.01.2020

Há muito tempo atrás, durante um dos cursos de avaliação de empresas que fiz nos EUA, um renomado professor me disse algo que nunca esqueci: que o conceito de valor é similar ao conceito de beleza, ou seja é uma percepção.

No caso da beleza, essa percepção pessoal é influenciada por diferenças culturais, geográficas, no ambiente familiar, e outros estímulos externos.

No caso do valor, criamos uma “lente” com fundamentos econômicos, associada a percepção de utilidade ou benefícios futuros, ponderados pelo risco. Com essa lente, então aprendemos a enxergar o valor das coisas.

Como engenheiro, aprendi que medidores e sensores precisam ser calibrados e aferidos ao longo do tempo, em função de novas variáveis incorporadas ao modelo matemático, melhorando a eficácia de todo o sistema. Podemos aplicar esse conceito de melhoria contínua para a nossa “lente” ou medidor de valor das coisas.

Não estamos totalmente cegos, mas com a visão embaçada. Sinais desta visão turva são detectados em fenômenos como o aquecimento global, desmatamento ilegal de florestas nativas, crimes ambientais ou sociais associados a atividades empresariais, poluição das fontes de nossa água potável, corrupção generalizada, entre outros.

O caminho não será fácil, na verdade será o desafio da humanidade para esse século. Particularmente, desconfio que a calibração do nosso sistema interno de valor, a nível individual, terá início quando virarmos a chave do “eu” para o “outro”, no que tange à percepção de utilidade das coisas e benefícios futuros. Uma forma de “avaliação distribuída”, na linha dos conceitos de processamento distribuído e bancos de dados distribuídos, este último tangibilizado na onda “blockchain”.

Se este for o caminho, mais uma vez copiaremos a sábia natureza neste conceito de avaliação distribuída: é o conceito, por exemplo, que permeia as decisões no reino vegetal, e também em muitas espécies “populosas” do reino animal.



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