O perverso custo da poluição da Baía de Guanabara Enquanto não ficar claro o quanto perdemos com turismo, lazer, pesca e as limitações ao desenvolvimento das atividades industriais, os problemas continuarão sendo pagos por todos

Apsis em Apsis na mídia, Artigos Atualizado em 16.06.2017

Qual o custo social da poluição da Baía de Guanabara? Quanto se perde com o turismo e o lazer com o seu estado atual? Estas são perguntas complexas e que podem ser respondidas sob vários aspectos. Se considerarmos que o lazer está intimamente relacionado à saúde física e mental, podemos facilmente associar um incremento nos gastos com a saúde da população que vive em áreas degradadas, ou próximas a elas. Ao avaliarmos a lista de doenças que têm como principal veículo a água, rapidamente concluímos que o custo social da poluição para a população é muito alto.

O dinheiro que é deixado de investir em tratamento de esgoto, em tratamento da água e na disposição adequada dos resíduos acaba sendo gasto com a saúde da população, valores que poderiam ser mais bem empregados se o investimento fosse feito no local correto. Mas tubo enterrado não rende votos, hospitais sim.

O esforço para reverter o estado de degradação da baía é longínquo. Desde os anos 1990, o governo e a sociedade do entorno tentam encontrar um caminho viável para reverter a poluição. Em 2011, ainda no contexto da Olimpíada do Rio, foi criado o PSAM – Programa de Saneamento Ambiental dos Municípios do Entorno da Baía de Guanabara.

O principal objetivo do PSAM é contribuir para a ampliação do saneamento ambiental nos municípios do entorno da baía. Tendo como fontes financiadoras o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) – US$ 451,980 milhões – com contrapartida do governo do Estado do Rio de Janeiro, no valor de US$ 187,570 milhões, o PSAM está estruturado em três componentes: implantação de sistemas de esgotamento sanitário, fortalecimento institucional do Inea, Cedae e Agenersa e promoção das políticas públicas municipais de saneamento e sustentabilidade fiscal. Em julho deste ano, está previsto no Museu do Amanhã, na Zona Portuária do Rio, um evento para apresentação dos projetos de governança e do plano de recuperação da baía.

A poluição da água está relacionada ao aporte de efluentes sanitários e industriais da bacia drenante que chegam ao local por emissários submarinos e por 55 rios e canais que ali deságuam – embora mais de 80% estejam associados a seis rios, praticamente todos na porção oeste da baía. Mas este não é o único problema, ainda temos o lixo flutuante e a contaminação dos sedimentos de fundo, que impactam a biota marinha e as atividades econômicas, uma vez que a Baía de Guanabara é um corpo hídrico de uso múltiplo. Os sedimentos de fundo funcionam como um reservatório de uma mistura de contaminantes e precisam ser geridos de forma adequada durante o processo de despoluição da baía.

Em um recente artigo publicado na revista “Marine Pollution Bulletin”, foi discutida uma ferramenta de avaliação de risco associado à disposição marinha de sedimentos contaminados. O algoritmo utilizado demonstrou ser uma importante ferramenta de gestão à medida que foi capaz de priorizar áreas, caracterizar os principais processos relacionados à dragagem, medir o risco potencial de sedimentos e prever os efeitos da mistura de sedimentos.

Enquanto não ficar claro o quanto perdemos com o turismo, o lazer (que também se reflete na saúde), a pesca e com limitações de desenvolvimento nas atividades industriais – seja pelo alto custo das dragagens, pelo assoreamento, ou pela baixa qualidade das águas nos pontos de captação em “rios mortos” – os problemas continuarão diluídos e pagos por todos, socializados, de uma forma perversa, em forma de poluição.

Ana Elisa Fonseca Silveira – Consultora de Sustentabilidade

O Globo



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