Baixas contábeis somam mais de R$ 90 bilhões no trimestre

Apsis em Apsis na mídia Atualizado em 17.07.2018

A baixa contábil de R$ 48,3 bilhões divulgada na segunda-feira pela Petrobras, principal causa do maior prejuízo da história da petroleira, é a mais significativa de um trimestre marcado por ajustes contábeis bilionários pelas empresas de capital aberto.

Na bolsa brasileira, ao menos cinco companhias registraram perdas elevadas por redução ao valor recuperável de ativos (“impairment”, na expressão em inglês). Petrobras, Vale, Usiminas, Gerdau e BM&FBovespa divulgaram em seus balanços do quarto trimestre baixas contábeis que somam mais de R$ 90 bilhões.

O montante representa cerca de 5% do valor de mercado de todas as 57 companhias que compõem o Ibovespa (R$ 1,83 trilhão). Outras empresas como Grendene, Embraer, Natura, Tractebel, Senior Solution e Mills também registraram baixas por impairment, mas em proporções menores, na casa dos milhões.

Em fevereiro, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já alertava as empresas listadas para a necessidade de realizarem testes de impairment, como parte do processo de elaboração das demonstrações contábeis para o exercício de 2015.

Os testes impairment são realizados pelas companhias periodicamente. Quando a empresa verifica que um ativo está avaliado por valor não recuperável no futuro, ou seja, quando o preço de venda ou a projeção de fluxo de caixa futuro é inferior ao montante pelo qual o ativo está registrado no balanço, a empresa faz a baixa contábil da diferença.

No quarto trimestre do ano passado dois fatores principais contribuíram para baixas por impairment significativas: a queda nos preços das commodities – com impacto sobre a recuperabilidade dos investimentos de petroleiras, mineradoras e siderúrgicas – e o aumento do prêmio de risco do Brasil, com a perda do grau de investimento.

No caso da Petrobras, a queda no preço do petróleo gerou a necessidade de baixa contábil. Segundo o presidente da estatal, Aldemir Bendine, o preço médio do barril do Brent recuou cerca de 50% em 2015, em relação ao ano anterior. Em 2015, o barril do Brent ficou próximo a US$ 100, enquanto no ano seguinte, caiu a pouco acima de US$ 50.

A volatilidade de preços no curto prazo e eventuais mudanças na projeção no longo prazo afetam a estimativa de fluxo de caixa futuro de ativos de exploração e produção. A estimativa é trazida a valor presente com a utilização de uma taxa de desconto, que aumenta diante do maior risco Brasil, ampliando a “imparidade” entre valor recuperável e valor contábil dos ativos.

Além das baixas na área de exploração e produção, a estatal também registrou perdas por impairment em ativos de refino, como o Comperj, devido ao adiamento do projeto – agora previsto para entrada em operação 2023. Em 2014, a Petrobras já havia registrado impairment de R$ 44,65 bilhões, o que leva a redução ao valor recuperável de ativos da estatal sozinha a mais de R$ 90 bilhões em dois anos.

A segunda maior baixa contábil por impairment do quarto trimestre foi registrada pela Vale: de R$ 36,28 bilhões, devido ao forte recuo dos preços das commodities minerais e metálicas. A queda do minério de ferro também determinou, em grande medida, a perda contábil da siderúrgica Usiminas, de R$ 1,6 bilhão.

Na Gerdau, a baixa de R$ 3,1 bilhões foi realizada nas unidades Brasil, América do Norte e Aços Especiais. Na operação nacional, as perdas refletem a redução da demanda e paradas de produção em usinas, como resultado da fraca atividade econômica no país. No mesmo sentido, a CSN também deve trazer baixa por impairment, quando divulgar seus resultados no dia 28.

A deterioração macroeconômica, com efeito sobre o valor de mercado das companhias listadas e sobre os volumes negociados, levou a BM&FBovespa a registrar perda contábil de R$ 1,7 bilhão no quarto trimestre. A baixa não foi feita antes porque a companhia precisava acompanhar por um tempo maior a tendência de deterioração, para entender se a situação seria duradoura, segundo o diretor financeiro da bolsa, Daniel Sonder.

Muitas empresas resistem num primeiro momento a registrar baixas por impairment, afirma o vice-presidente da Apsis Consultoria, Luiz Paulo Silveira. “Elas elaboram cenários alternativos, dizem que vão cortar custos ou alongar dívidas, ou que o mercado pode melhorar em alguns anos”, cita o especialista.

Isso significa que o impairment pode ser até maior do que o sinalizado agora pelas empresas, acredita Silveira. Além disso, outras companhias, com atividades ligadas ao consumo interno ou ao mercado imobiliário, por exemplo, podem ser obrigadas a realizar ajustes por imparidade no futuro próximo, caso a deterioração dos indicadores se mantenha, afirma o consultor.

“Vivemos um ciclo virtuoso da economia de 15 anos. É difícil numa época em que está tudo crescendo identificar sinais de impairment”, diz Silveira. “Agora que a economia tomou um sinal contrário, os avaliadores independentes, as empresas de auditoria e os próprios investidores terão que testar seu olhar crítico, pela primeira vez desde a adoção do IFRS”, considera o analista.

O padrão contábil internacional tornou-se obrigatório para empresas brasileiras a partir do ano calendário de 2010.



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